Irrigação pública estadual influencia na maior parte dos itens da Cesta Básica mais barata do Brasil

Irrigantes do Perímetro de Lagarto produzem esterco e forragem, abastecendo municípios do entorno

Gilvan e as batatas-doces, que tem as ramas utilizadas na alimentação animal [Foto: Gabriel Freitas]
Além de tomate, mandioca, banana e cana-de-açúcar, que influenciam diretamente nos preços que fazem de Aracaju a capital com a Cesta Básica mais barata do Brasil por quatro meses seguidos, a irrigação pública dos perímetros estaduais também produz forragem para bovinos. Com a adição do leite, da manteiga dele derivada e da carne bovina, sobe para sete o número de alimentos da cesta básica, cuja produção é favorecida pela irrigação estadual, dentre os 12 pesquisados mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). No Perímetro Irrigado Piauí, administrado pela Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e irrigação de Sergipe (Cohidro) em Lagarto, há os criatórios que produzem sua própria ração, os que vendem capim de corte, forragem de milho, ramas de batata-doce e esterco até para produtores fora do perímetro, promovendo a ‘Integração Irrigado-Sequeiro’.

Gilvan Lima reserva um hectare de seu lote, no perímetro Piauí, para a produção contínua dos capins de corte das espécies palmeirão, roxo e elefante, para alimentar 10 cabeças de boi de engorda e 17 vacas de leite. A ração dos animais é composta da mistura de capim, palhada e espigas de milho e restos culturais, como o pé da mandioca – chamado por eles de ‘manaíba’. “É tudo do plantio que eu faço. O milho, quando eu não coloco verde picado, com espiga e tudo, eu moo o grão de milho seco junto com o capim”, explica o produtor rural. Para ele, a chegada do perímetro abrangendo sete povoados de Lagarto modificou toda a forma de produzir. “Antes, era complicado, mas depois da irrigação foi outra coisa. Planto o milho, planto o capim. Até a rama da batata-doce se aproveita para o gado. Antes do perímetro, só tinha capim no inverno. Tinha que dar tudo contado e comprar fora o farelo”, lembra.

Segundo o diretor de Irrigação e Desenvolvimento Agrícola da Cohidro, João Fonseca, o excedente do plantio de capim, somado a todo milho para silagem e restos culturais gerados nos 421 lotes do perímetro de Lagarto, suprem um mercado consumidor de ração animal e outros insumos, bem maior que os 14,5 km² do perímetro Piauí. “Em Sergipe, 29 municípios são considerados pela Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) como de clima semiárido, em que o déficit hídrico é muito grande, prejudicando a atividade agrícola na maior parte do ano. Por isso, em nossos seis perímetros incentivamos, além do produto in natura, a produção de espécies vegetais para alimentação animal, que o agricultor possa comercializar o excedente com o mercado do entorno dos perímetros”, defende.

A pecuária dentro do perímetro irrigado é uma prática paralela à agricultura, que muito se aproveita desta oferta de água para a produção da ração, como afirma o gerente do Piauí, Gildo Almeida. “Tem entre 15 e 20 produtores que usam o capim de corte para sustentar suas criações de gado, e tiram o sustento da venda das cabeças de gado de corte, do leite e do esterco”, conta. Segundo ele, é no verão que se torna mais importante a oferta de água para a pecuária, suprimindo a falta de pastos verdes. “Usam o capim e a palhada do milho para fazer silagem e sustentar o gado nesta época de estiagem. Muitos fazem o confinamento, para abate; mas a maioria é para produção de leite”, conclui Gildo.

Para Gilvan, compensa plantar capim. “No verão, quem tem um capim verde, ganha dinheiro. Pois se não tem gado, vende o capim. Quando tem capim de sobra no inverno, eu dou para os vizinhos que têm criação. Porque se o capim ficar muito velho, é ruim. É melhor tirar, adubar e plantar de novo”, ensina o irrigante. Em seu lote, criando gado, o número de produtos só aumenta. Vai do leite, que vende para um atravessador; até o adubo natural, indispensável para a produção agroecológica. “O esterco eu vendo também, para quem não gosta de usar agrotóxicos e adubos químicos. É muito bom adubar com o esterco no verão. Eu mesmo uso no capim de ração, no cultivo do milho e na batata-doce italiana e roxinha”, finaliza.

[vídeo] Sergipe Rural mostra cultivo de palma irrigada em Tobias Barreto

O cultivo da palma forrageira irrigada está servindo como reserva alimentar para o gado de leite, principal atividade adotada no Perímetro Irrigado Jabiberi, administrado pela Cohidro em Tobias Barreto. A empresa pública cedeu seu lote experimental, conseguiu as sementes da variedade ‘palma miúda’ para esse primeiro lote com o Projeto Palma para Sergipe, do Sebrae, e incentivou os produtores a adotarem o cultivo, para usar quando não for possível irrigar os pastos.

A prática vai diminuir os custos para o pequeno pecuarista alimentar o gado em casos de futuras estiagens prolongadas (como no verão de 2018 para 2019) em que possa não haver condições de irrigar os pastos, principal fonte de alimento para o gado criado nos lotes do perímetro. Porém, o técnico agrícola da Cohidro, José Coelho, sugere que a planta tem um grande valor energético e possui muita concentração de água, sendo assim um alimento completo para os rebanhos e pode ser adotado o ano inteiro.

Trovoadas no Sertão enchem barragens recuperadas pelo Governo do Estado

Dessedentação animal vem a ser a principal função das barragens de terra recuperadas

Conhecidas no Nordeste como “Trovoadas”, o pico das chuvas de verão, até o momento, chegou em Sergipe na segunda quinzena de janeiro, surpreendendo em volume e intensidade justamente na região mais árida do Estado. Embora tenha trazido prejuízos em zonas urbanas e interdição de estradas, foi um alívio ao sertanejo, que pode acumular boa parte desta água em cisternas, para o consumo humano e nas aguadas, para a dessedentação das criações de animais.

Empresa que faz parte da Força-tarefa de Recursos Hídricos para o Semiárido, do Governo do Estado, a Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação de Sergipe (Cohidro) desde 2012 vem sendo a executora do Programa de Recuperação de Barragens. Trata-se de um convênio entre as secretarias de estado da Mulher, Inclusão, Assistência Social, do Trabalho e dos Direitos Humanos (Seidh) e da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e Pesca (Seagri), onde a Empresa é subsidiada. Cooperação que já recuperou 1.869 agudas, sendo 19 delas de médio porte e de uso coletivo.

Só na edição 2014/2015 do Programa foram recuperadas 14 destas barragens públicas. Uma delas foi a barragem coletiva do Povoado Ouricuri, em Gararu. Na localidade onde residem cerca de 300 pessoas, por volta de 70 famílias tem como a atividade principal a criação de gado. As chuvas de janeiro foram fortes na região da pequena localidade, fez encher rios e danificar as estradas, mas completou o nível e fez até transbordar os vários reservatórios de terra, quase que um para cada casa, feitos para juntar água para as criações.

Brás Matias dos Santos cria 8 cabeças de gado e 10 ovelhas no Ouricuri. Ele conta que a barragem comunitária que foi reformada “estava seca antes dessa chuva, agora encheu duma vez. Quando falta água nos tanques, quando ela acaba, passamos a usar a da barragem”, explicou o produtor. Ele trazia o Mandacaru para alimentar suas vacas, um das alternativas com que conta no Sertão, assim como o reservatório maior, onde leva os animais para beber no momento de precisão.

Assim como no povoado de Gararu, no município vizinho de Porto da Folha a localidade Pé de Serra também tem como atividade principal a criação de gado e quando acaba a água das cisternas, aguadas e tanques, a alternativa é buscar de carroça ou levar os animais até o açude público, reformado pelo empenho da Cohidro há pouco mais de um ano. Segundo Engenheiro Civil da Empresa, Valdi Aragão Porto, o trabalho consiste na limpeza dos sedimentos que acumulam no fundo da barragem desde sua construção, e diminuem, gradativamente, a capacidade de armazenar água.

“Também reconstruímos e reforçamos os taludes, que impedem que a força das enxurradas estoure a barragens. Temos o cuidado de construir o sangradouro, para onde a água corre no caso de transbordar, sem danificar os taludes. O que foi muito útil, nesse caso da barragem do Pé de Serra, pois o volume de passagem de água aqui foi maior que a capacidade do reservatório”, reforçou Valdi Porto, responsável técnico por esta obra e a da barragem que fica no povoado Vaca Serrada, ainda no município de Porto da Folha.

A barragem da Vaca Serrada passou por uma ampla ação de manutenção e recuperação de sua capacidade em 2012. “Nas chuvas que ocorrerem no último mês, o volume da água aumentou bastante, atingindo seu ápice desde a sua reforma”, comemorou o Engenheiro Valdi Porto. Por ser de fácil acesso, às margens da Rodovia SE-230, o reservatório se tornou aplicável para múltiplos usos, desde o abastecimento dos rebanhos como para o uso doméstico, levado por caminhões pipa até as cisternas.

Poço Redondo

Mardoqueu Bodano, Presidente da Cohidro, explica que essas obras em pequenas barragens particulares acontecem seguindo critérios, como no caso de somente criações de até 19 cabeças de gado receber o benefício. “É necessário que a família deste produtor esteja enquadrada como de baixa renda e a principal fonte de renda familiar seja a agropecuária. Além disso ele também assina um documento em que se compromete a atender os pequenos criadores vizinhos, compartilhando o uso da água em novos períodos emergenciais”, revelou.

No caso do criador José Amilton da Silva, atendido pelo Programa em 2014 no Assentamento Queimada Grande, em Poço Redondo, nem é preciso lembrá-lo do compromisso firmado. “Se os tanques dos vizinhos secarem, eles vêm buscar no meu, da mesma forma que posso contar com eles também. Foi muito bom esse trabalho de limpeza e foi a primeira vez que encheu depois da reforma”, conta o produtor que tira 100 litros de leite do seu pequeno rebanho e comercializa, na região, pelo preço médio de R$ 1, cada litro.

Secretário de Agricultura de Poço Redondo, José Fernandes reforça a importância do Programa do Governo do Estado para o município, onde desde 2012 foram recuperadas 344 pequenas aguadas e dois açudes públicos. “Foi um trabalho que atendeu sim as expectativas, só aqui no Queimada Grande foram 105 famílias atendidas, mas temos cerca de 4 mil que precisam deste serviço noutras localidades. Esse Programa tem que ser feito anualmente e tem que ser planejado atendendo mais barragens de grande porte, para que os que estão próximos recorrerem quando tiver uma estiagem de um ou dois anos”, afirmou.

Paulo Henrique Machado Sobral, Diretor de Infraestrutura e Mecanização da Cohidro, reforça que até hoje o Programa de Recuperação de Barragens já atendeu 57,5 mil pessoas, com um investimento total de R$ 3,6 milhões na reforma destas barragens em todo Estado. “Agora, nosso projeto que está em fase de análise, pretende recuperar mais 1000 destas pequenas aguadas rurais e outras 20 barragens maiores, pensando no abastecimento coletivo em comunidades. Isso é mais do que já fizemos até hoje, superando as 19 dessas barragens públicas recuperadas pela Cohidro desde 2012”, avaliou.

Noutro assentamento também de Poço Redondo, o Che Guevara, a barragem de médio porte, de uso coletivo, também acumulou um volume considerável de água. Próxima da povoação formada pelas casas dos agricultores, o reservatório vem por servir de suporte quando os tanques individuais, junto ao pasto de cada criador, secarem.

Glória

Mas há casos em que as barragens coletivas são a única alternativa para dar de beber às criações. Esse é o caso de Alexandre Matos da Silva, do Povoado Fortaleza, em Nossa Senhora Da Glória. “Crio duas vaquinhas, comecei agora, para produzir leite. Minha única reserva de água é esta. Às vezes eu solto as vacas aqui na propriedade vizinha da barragem. Antes eu não criava porque não tinha água, agora tem”, contou o criador, quando veio buscar água no reservatório público reformado pela Cohidro no período de 2014/2015, usando uma carroça puxada a cavalo.

Alex, como é mais conhecido, também descreve que não é só ele que conta com o reservatório na região. “Vêm buscar água aqui de caminhão pipa. Isso aqui é uma riqueza, essa barragem. Por enquanto está bom, cada um com seu poço, mas chega o verão e todo mundo vem aqui pegar água”, esclarece o micro-pecuarista, ouvido logo após o período em que choveu muito no município.

Última atualização: 18 de outubro de 2017 10:20.

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