Palestra aos irrigantes da Cohidro visa conversão à agroecologia em Canindé

Parte teórica da palestra técnica. Foto: Ariel Carmo

“O papel da agroecologia no atual cenário de aquecimento global e desertificação no Seminário Sergipano” foi o tema da palestra do Professor Doutor Diego Campana Loureiro e seus bolsistas da Universidade Federal de Sergipe (UFS), proferida na manhã da última quinta-feira, 16, no escritório da Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação de Sergipe (Cohidro) em Canindé de São Francisco. Como público, os irrigantes do Perímetro Irrigado Califórnia, além dos técnicos da Empresa e outros agricultores do município. Pela tarde o evento teve continuidade com práticas de campo.

Doutorado em Fitotecnia com área de concentração em Agroecologia, o Professor e Engenheiro Agrônomo Diego Campana está lotado no Departamento de Engenharia Agrícola da UFS. A palestra dada é uma das atividades do projeto “Emissões de CO², N²O e CH4 no Cenário de Mudanças Climáticas em Solos sob Agricultura e Floresta da Caatinga no Perímetro Irrigado Califórnia, Semiárido de Sergipe”, que tem os acadêmicos Elton Silva e Andressa Aiala, do curso de Engenharia Florestal da Universidade, como bolsistas.

Segundo o Professor, essa palestra tem por objetivo explicar os efeitos das mudanças climáticas e o processo de transição agroecológica, que seria uma solução imediata para o aumento da incidência de carbono no solo, em contrapartida à diminuição do lançamento dele na atmosfera, em forma de gases. “O aquecimento global é um processo natural, mas não nessa magnitude que está ocorrendo agora, pelo aumento de gases poluentes como o CO², que é liberado inclusive no uso de adubos químicos, como a ureia”, alertou Diego Campana.

O especialista reforça a importância do ciclo do carbono para a planta, que no exemplo de Canindé, tem que ser aditivado por meio de tratos culturais específicos. “A matéria orgânica adicionada ao solo é rapidamente queimada no calor do Sertão, onde se usa da irrigação. Por isso é preciso usar sempre mais para ser incorporado no solo. A ideia é aumentar o uso do que tem dentro da propriedade, trazer a absorção do carbono para os mesmos níveis da vegetação natural”, acrescentou o Professor sobre o reaproveitamento de restos culturais e outras biomassas nas áreas de plantio.

Sistema Agroflorestal
Pela tarde, o grupo de especialistas, técnicos e agricultores foi até o lote da agricultora Quitéria da Silva Araújo, dentro do Califórnia. É lá que o Projeto de Extensão dos alunos e Professor da UFS pretende auxiliar a família de produtores a implantar um Sistema Agroflorestal (SAF), que une a lavoura e a criação de animais com práticas de conservação e extrativismo em florestas, onde os rejeitos desses três sistemas são compartilhados em forma de insumos.

A família de Quitéria já faz parte de Organização de Controle Social (OCS) reconhecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (Mapa) e tem a autorização para venda direta, ao consumidor, de alimentos com a titulação de orgânicos. A propriedade da agricultora está alocada na parte da agricultura de sequeiro do Califórnia, a qual tem um ponto de água para o consumo doméstico, irrigação para cultivos de subsistência e pequenas criações.

“É maravilhoso, porque a gente preserva a natureza. Enquanto o povo só está desmatando, a gente vai plantar árvores. Vai ser bom se der jeito de produzir. No verão aqui é muito seco, não há como plantar. Tendo plantado no SAF plantas como o umbuzeiro e a umbara, para produzir frutos e o pau ferro, a umburana e a aroeira, para dar madeira, a gente tem mais essa fonte de renda”, contou Quitéria. Na atividade pratica feita em seu lote, na quinta-feira, o Professor Diogo ensinou a fazer a preparação de um composto orgânico, pra adubar canteiros e o grupo montou minhocário, outro método de produção de adubo natural.

O técnico agrícola da Cohidro, Tito Reis, trabalha prestando assistência dentro do Perímetro Califórnia e é quem atende a família de Quitéria. “Vamos criar um SAF no lote de Quitéria, vai proteger a produção orgânica, formando uma barreira viva e vai também proteger o solo da ação do sol, que descoberto faz evaporar mais rápido a água posta na irrigação”, acrescentou.

Agroecologia no Califórnia
Administrado pela Cohidro, o Perímetro Califórnia desenvolve um trabalho de assistência técnica agrícola em que sempre é oferecido, ao agricultor convencional, a opção da conversão ao cultivo usando métodos agroecológicos, o que resulta em mais produtores de alimentos orgânicos e livres do uso de agrotóxicos. Atividades como esta do dia 16, são uma das ações voltadas a esta troca de modelo produtivo.

Dez produtores, incluindo Quitéria Araújo, já aderiram a agroecologia e hoje formam a Associação Sergipana de Orgânicos (Bio5). Seis deles possuem inscrição na OCS reconhecida pelo Mapa. Isso faz com que outros agricultores do Perímetro fiquem curiosos por saber mais da novidade e cinco já demonstram bastante entusiasmo em participar da Bio5, conforme disse a presidente Rosângela Oliveira Andrade.

“Para estas pessoas interessadas em atuar também na Bio5, hoje a única restrição que fazemos é de que não aceitamos o trabalho individual, pois o grupo trabalha com a Agricultura Familiar, então é necessário que esta família esteja interessada em praticar a agricultura orgânica”, expôs Rosângela. Ela ainda comentou sobre a palestra que “é preciso uma reciclagem. Não se começa um projeto sem esta base, sem se capacitar não adianta. Já temos os recursos – terra é água – e a mão de obra, agora precisamos nos preparar, buscar formas de saber aproveitar isso que temos para adequar ao cultivo orgânico”, concluiu a presidente.

Edmilson Cordeiro, Gerente do Perímetro Califórnia, considera fundamental o apoio que a Cohidro vem dando para o desenvolvimento da Bio5. “Hoje temos o trabalho desses produtores que souberam se organizar e estão de parabéns, mas quero deixar claro que isso não é algo exclusivo para eles e estamos aqui, de portas abertas, para todas as entidades que existem dentro do Perímetro ou que venham a ser formadas. Não há oposição da direção da Companhia, da gerência de Canindé ou dos técnicos pelo associativismo, pelo contrario. Se há disposição dos membros do grupo em trabalharem juntos, contem com nosso apoio para se organizarem”, informou.

Sobre esta abordagem feita aos produtores comentou, durante a palestra, o produtor Gercino Teles. “É bom e é importante que o trabalho de assistência ao agricultor seja assim, como está sendo feito pela Cohidro, em que ao invés de multar quem usa agrotóxico de forma errada, faz é chamar para trabalhar junto, trazendo novos projetos e estas alternativas de produção”, desabafou ele que faz parte da Bio5, pleiteia a entrada na OCS e participa do projeto de produção de frango caipira com aptidão agroecológica, que a Associação e Cohidro estão oferecendo suporte para implantação.

Mardoqueu Bodano, presidente da Cohidro, elogia o trabalho feito pelos técnicos e agrônomos da Empresa, tanto a parte que tenta converter à agroecologia quanto ao associativismo. “Se juntos eles podem se ajudar a produzir, a comprar insumos em melhores condições de preços, ou escoar a produção de modo mais eficiente, isso é bom. Mas melhor ainda quando o agricultor familiar aprende a lidar com a terra sem lançar mão a pesticidas. Assim deixa de por em risco sua saúde e da sua família, que trabalha com ele e mora junto da lavoura, além da nossa, que nos orgânicos temos certeza de estar consumindo alimentos verdadeiramente naturais”.

Última atualização: 23 de outubro de 2017 11:59.